Faianças

Chá e Deuses

bandeja indiana antiga

Cinco batidas ritmadas no velho relógio de parede.

Fiquei alerta, pouco depois a porta do escritório abriu-se.

Ele olhou para mim e perguntou:

– Os trabalhos estão feitos?

– Quase, quase… respondi, mas com o olhar já perdido na outra mesa onde o chá me esperava.

– Vá, faz uma pausa e vem lanchar, chamou-me risonho.

Levantei-me e observei o ritual:

A toalha bordada, as chávenas de porcelana colocadas frente a frente com as pequenas colheres ordenadas em cada um dos pires, os guardanapos dispostos ao lado, os pratinhos com pãezinhos e a bandeja com o bule fumegante e o açucareiro.

Já sentada, o bule foi levantado e na bandeja surgiram flores estranhas de curvas retorcidas e Deuses que pareciam dançar para mim bailados excêntricos em cerimónias complicadas.

O chá deixou de ser apenas chá… de dento do bule saíram melodias estranhas e cheiros de especiarias exóticas e da minha chávena surgiram pétalas de flores perfumadas que em diferentes cores esvoaçaram pela sala até o meu chá arrefecer…

(…)

Esta bandeja é característica de Moradabad na India, uma cidade situada nas margens do Rio Ramganga com cerca de 679 mil habitantes e que tem o costume de trabalhar os metais para fabricar peças como bandejas; potes, vasos; esculturas, joias e outras peças de decoração e utensílios.

Não se sabe ao certo como nasceu a tradição de trabalhar os metais, mas existem registos que dizem que o solo da região era propício para a formação de moldes de barro necessários para moldar o latão.

A técnica utilizada tem o nome de “cera perdida” e consiste em desenhar e moldar a peça em cera de abelha e cobri-la com argila como contra molde, posteriormente a argila vai ao forno para endurecer e a cera de abelha derrete, deixando espaço para inserir o metal fundido que ganha a forma pretendida. Em frio, a argila é partida e deixa o metal a descoberto.

A primeira exportação destas peças foi para o Reino Unido em 1857, uma vez que o primeiro interessado nesta arte foi um colecionador de nacionalidade inglesa. Ao verificar a rentabilidade deste ofício o número de artesãos cresceu continuamente.

Hoje Moradabad é conhecida como Peetal Nagri (Terra do latão) e as suas peças são exportadas para todo mundo, existindo no local mais de 600 exportadores e 5000 fabricantes.

Nesta bandeja de inícios do séc. XX de inspiração Hindu podemos ver uma representação da deusa Durga e do deus Hanuman.

bandeja indiana sec.19

Hanuman é para o hinduísmo um ser imortal, uma reencarnação da deusa Shiva, filho do vento e de Sri Anjanna, leal servo do Deus Sri Rama. Tem uma forma símio humanoide, é adorado por milhões de pessoas na India e simboliza a força, a positividade, a devoção e a dedicação.

Durga por sua vez é um dos deuses mais conhecidos do Hinduísmo e é retratada como “A Invencivel”, mulher de Shiva e por isso madrasta de Hanuman é ela quem caça os demónios, as forças do mal presentes na crença Hindu.

Shiva Indian Tray

 

É geralmente acompanhada de uma espada como símbolo de sabedoria, um tridente denominado de trishula, arma com a qual destrói a ignorância humana, a concha que representa o som universal (OM) e o tigre que insinua força, destruição e determinação.

No Hinduismo podemos encontrar os mantras: poemas em sânscrito, místicos e religiosos que são recitados ou cantados de forma repetitiva e que têm como objetivo auxiliar na meditação. Os mantras são escolhidos consoante o Deus a que se reza e consequentemente a ajuda necessária.

O mantra “Jai mata Kali kay mata Durge” é direcionado á deusa Durge e ajuda a ultrapassar obstáculos, a defender do mau olhado, do orgulho e dá força para combater ataques inimigos.

 

Este Post teve o contributo do blog: https://rekhasahay.wordpress.com/