Lazer

Bolo-Rei – Brindes e Tradições

Naquela noite tinha adormecido no sofá com o novo membro da família ao colo. Quando acordei de manhã já com o sol a bater no rosto reparei que a cachorrinha já tinha vagueado pela sala.

 Fui até junto do presépio de que muito me orgulhava e foi nessa altura que reparei que os presentes que estavam em frente do menino Jesus tinham desaparecido! Todos os brindes do Bolo-Rei que eu tinha guardado ano após ano para colocar no presépio como ofertas dos Reis Magos tinham sido literalmente devorados pela nossa pequena cadela e foi necessário levá-la ao veterinário para que tudo voltasse à normalidade…

Bolo rei

A dia 6 de Janeiro celebra-se o Dia de Reis.

Em alguns locais do mundo este é o dia de distribuir as prendas, para outros o fim da época natalícia e a altura em que as decorações são arrumadas, mas para muitos é dia de saborear o famoso bolo-Rei.

Diz a lenda que os Reis Magos fizeram uma viagem de 12 dias até chegarem perto de Jesus, ao chegarem ao estábulo onde estava o menino iniciaram uma discussão sobre qual deles iria entrar primeiro para levar a sua oferenda, passou um artesão que sugeriu como solução fazer um bolo com uma fava, aquele que encontrasse a fava no bolo seria o primeiro a entrar e a comtemplar o menino nascido.

O Bolo-Rei é assim associado aos reis magos com a côdea a simbolizar o ouro, os frutos cristalizados a mirra e o aroma o incenso.

A História, por sua vez, conta-nos que na Roma antiga já se fabricava um bolo similar nas festas de Saturno, onde quem encontrasse a fava era coroado como rei da festa.

Mas o bolo-Rei como o conhecemos apareceu na França no séc. XVII sendo a sua produção proibida aquando da revolução Francesa em 1789, posteriormente o bolo continuou a ser feito mas mediante outro nome.

A tradição deste bolo espalhou-se pela Europa e em 1870 apareceu em Portugal fabricado pela Confeitaria Nacional, em Lisboa, mais uma vez passou dificuldades durante a abolição da monarquia mas com o tempo voltou a prosperar nas casas portuguesas.

Ao mesmo tempo que se aperfeiçoavam os primeiros bolos-reis, também em França por volta de 1800, surgiram os primeiros anéis para guardanapos. Eram utilizados nas casas burguesas, onde nesta altura a apresentação de uma mesa composta já era requisito de uma família abastada. Com o tempo este objeto facilmente personalizado passou a encontrar-se por toda a Europa feito em diversos materiais e com as mais variadas gravuras, onde o mais requisitado era o monograma com as iniciais da casa.

Reis Magos em prata

Na figura podemos ver umas argolas gravadas em comemoração de 25 anos de casamento (Bodas de Prata) com produção em Londres no ano de 1935 como mostram as marcas de contrastaria inseridas nas peças.

 

 

 

 

GOLDSMITHS&SILVERSMITHS1023.1893bis
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Adereços

Cartola – Tendências e Extravagâncias

– Estou bem assim? Perguntou-me uma vez.

Olhando para ela e vendo que usava demasiados ornamentos, mas não querendo ser brusca respondi-lhe: -Hum, um pouco exagerada não achas?

– Não posso sair assim? Arriscou mais uma vez.

Pronto, tive de ser verdadeira:

– Acho… bem não leves a mal… mas pareces uma árvore de natal com tanto colar e tanta pulseira!!!

Nesse dia ela aprendeu uma lição para a vida porque a partir daí quando antes de sair me perguntava: – Estou bem assim? A minha resposta sincera passou a ser: – Perfeita!

Um símbolo de estatuto e poder desde o séc. XVI, associado muitas vezes aos grandes empresários e exclusivo da utilização masculina estima-se que teve a sua aparição no ano de 1797 na Inglaterra.

Cartola sec. XVIII

Embora o primeiro chapéu alto tenha sido produzido por George Dunnage em 1793 como prova a patente em posse da firma Dunnage & Larkin emitida no ano de 1794, conta a história que Hetherington, dono de uma retrosaria, apresentou ao mundo em 1797 aquilo que viria a ser a próxima grande moda do vestuário masculino até ao final da segunda guerra mundial.

Saiu para as ruas de Londres vestido a rigor com o seu novo acessório e chamou a atenção de todo o povo, a inovação era gigantesca, as pessoas ficaram tão incomodadas que Hetherington foi convidado a recolher-se por um policia, tendo mesmo sido acusado de distúrbio da ordem publica.

Sabemos hoje que a acusação afirmava que a sua invenção era de tal ordem estranha que levou ao desmaio de várias mulheres e ao pânico de crianças e animais:

“on the public highway, wearing upon his head a tall structure having a shiny lustre and calculated to frighten timid people… several women fainted at the unusual sight, while children screamed, dogs yelped and a younger son of Cordwainer Thomas was thrown down by the crowd which collected and had his right arm broken.” – The Hatters’ Gazette

A Cartola descende esteticamente dos sugarloaf e veio substituir os chapéus triangulares, sendo possível encontrar documentos onde se denota a transição estilística entre estes dois géneros de acessórios.

Charles-vernet-top-hat.jpg
Les Incroyables, 1796 por Jean Louis Marais

Tal como a revista Times anunciou no dia seguinte ao aparecimento deste chapéu, o mundo rendeu-se a este novo estilo e até ao ano de 1907 já tinham sido fabricados 16.500.000 chapéus, sendo a Inglaterra o maior fabricante e distribuidor com 36 artesãos.

Várias foram as marcas que ficaram conhecidas pela produção artesanal de chapéus entre elas, a Woodrow que tinha a sua sede em 46 Piccadilly Street London e tinha uma produção nacional com exportações para todo o mundo, marca que produziu a cartola apresentada na primeira figura.

Cartola marca (2)

George Brummel, um grande influenciador da moda na época sendo considerado como uma referencia máxima de elegância na corte inglesa, teve um papel muito importante na propagação deste acessório uma vez que ele achava adequado a utilização do mesmo durante o dia a dia, levando a que os seus seguidores adoptassem também este estilo elegante e discreto.

Inicialmente apenas empresários e senhores de grande estatuto podiam adquirir este chapéu, mas ao ser publicitado por entidades dirigidas ao povo comum como Abraham Lincoln e com a sua crescente produção tornou-se possível o uso destes itens por homens de classes mais baixas.

Woodrow anuncio
Alamy

 

Assim a Cartola tornou-se um elemento que ultrapassava a estética e era essencial no guarda roupa de qualquer homem, podendo até existir insultos e confrontos caso o homem não se apresentasse com esta ao saír de casa.

Outras tendências vieram e o chapéu alto passou a ser utilizado apenas em ocasiões mais célebres, existindo uma decadência da sua produção durante a segunda grande guerra levando ao encerramento total do ultimo fabricante de Cartolas (Battersby’s) em 1980.

 

 ‘the sign of a good dresser is someone who does not attract attention’

– George Bryan Brummel

 

Lazer

Pirâmide de Natal

 

Piramide Natal Alemã

 

 

Apagavam-se as luzes, acendiam-se as velas.

Olhava para o tecto, sombras em movimento previam a época  que chegava.

 

Eram minutos de silêncio partilhados por todos nós.

Era um ritual, o nosso ritual de natal.

 

 

Embora a árvore de natal seja associada a diversos cultos pagãos nomeadamente aos festejos do solstício de Inverno ou por exemplo em honra de Saturno, deus da agricultura, esta surgiu relacionada directamente com o natal nos países do norte da Europa havendo mais do que uma teoria para a sua origem.

Conta a lenda que Martinho Lutero, monge agostiniano alemão que viveu no século XVI, uma noite perto do Natal ao passear pela floresta ficou encantado ao ver os pinheiros cobertos de neve onde entre os ramos das árvores surgia o brilho das estrelas. Aquela imagem tão bonita fê-lo lembrar Jesus ao deixar as estrelas do céu para a vir à Terra no Natal e então com galhos de árvores decorados com algodão, outros objectos decorativos e pequenas velas conseguiu mostrar aos seus familiares a imagem magnifica que tinha presenciado sendo a primeira pessoa a ter em sua casa uma árvore de natal como conhecemos e a partir dessa data outras pessoas passaram a fazer uma árvore idêntica nas suas casas.

Porém uma outra história fala que São Bonifácio de Crediton deixou a Inglaterra e viajou para a Alemanha para pregar nas tribos germânicas pagãs e convertê-las ao cristianismo. Conta-se que encontrou um grupo de pagãos que sacrificavam um menino em honra de uma arvore de Carvalho. Para interromper este sacrifício afim de salvar a criança São Bonifácio cortou a arvore e desta brotou um pequeno abeto. O santo tomou a aparição do pequeno pinheiro como um sinal divino da santíssima trindade e a partir daquele momento as arvores foram decoradas com velas como uma forma de oferta.

O primeiro uso documentado de uma árvore nas celebrações de Natal e Ano Novo foi na praça da cidade de Riga, capital da Letônia, no ano de 1510. Nessa praça, existe uma placa dizendo que aquela foi a primeira árvore de Ano Novo, sendo que a frase está traduzida em oito idiomas diferentes.

primeira arvore de natal
Imagem retirada do google

Para além destas lendas, na idade média celebrava-se o dia de Adão e Eva a 24 de Dezembro, decorando-se uma árvore com maçãs a que se dava o nome de árvore do paraíso.

A actual árvore de natal é assim uma mistura de vários cultos e tradições que se fundiram e chegaram até nós.

As pirâmides de natal por sua vez, apareceram em primeira instância na cidade de Erzgebirge, onde os seus habitantes trabalhavam principalmente na industria mineira, eram feitas à mão e vendidas a pessoas que não tinham espaço para colocar uma árvore de natal verdadeira ou que morassem em locais onde estas fossem difíceis de encontrar. Estes objectos podem ser encontrados com mais de 200 anos de idade.

Hoje, a Alemanha continua a ser procurada pelas suas tradições e produtos natalícios existindo diversas feiras de natal onde podemos encontrar estas pirâmides com variados tamanhos e temas.

arvore de natal google
Imagem retirada do google

Para além do seu significado religioso e a sua bonita estética estes objectos apresentam ainda a particularidade de se movimentarem com o calor emanado pelas velas que são colocadas na base da pirâmide dando animação à peça e criando um ambiente natalício com sombras e formas.

O que a torna mais especial é a possibilidade de estar presente diariamente lembrando-nos que os sentimentos de natal nos devem acompanhar ao longo de todo o ano.

 

 

Adereços · Valor

A era do Ouro – Elizabeth I

coin Elizabeth I

Dentro daquelas gavetas havia livros com moedas, algumas prateadas e outras amarelas, havia moedas rosadas ou vermelhas e ainda outras acastanhadas.

– Esta moeda está furada porquê? Perguntei eu naquele dia.

– É uma moeda da sorte… a lucky coin! Respondeu-me ele, repetindo na sua língua primária como fazia habitualmente quando se entusiasmava.

Fiquei em silêncio a ouvir sem acreditar muito nas suas palavras.

– Dizem, já há muitos anos, que moedas furadas trazem sorte e que devemos ter sempre uma nos nossos bolsos ou na nossa carteira e se a moeda for de prata melhor ainda. Podemos pedir à lua nova que nos traga mais e mais moedas, continuou ele tentando convencer-me.

– Toma, fica com ela para ti. Coloca-a no teu porta-moedas… Não te esqueças de pedir à lua mais dinheiro, e os seus olhos sorriam ao perceber que eu desconfiava da sua história.

– Moeda da sorte… coitada, até está furada! Murmurei de modo a que ele não me ouvisse continuando a olhar para ela.

Esse dia passou e alguns outros também, mas veio a noite de lua nova que eu secretamente aguardava e nessa noite lá estava eu a falar à lua:

Lua, lua de prata

Tenho uma moeda da tua cor

Faz com que os meus bolsos

Tenham mais valor!

Mas lua não fiques zangada…

A minha moeda está furada!

(…)

Devido á variedade de temas e materiais utilizados na cunhagem, as moedas adequam-se a todos os gostos e por isso, seja com finalidade estética ou por estatuto, as moedas são utilizadas como acessório desde a antiguidade.

Sem perder o seu valor a moeda foi utilizada ao longo da história associada a trajes femininos e masculinos, podendo ser encontrada em brincos, colares, anéis, pulseiras, botões, pregadores e correntes de relógio.

Sendo um objeto extremamente viajante e com características intrínsecas ao seu local de produção, a moeda era um excelente objeto de divulgação e publicidade, era utilizada principalmente por mercadores, viajantes, comerciantes e personalidades abastadas que ostentavam as moedas de maior valor e beleza.

Devido, mais uma vez, ao seu valor monetário, a moeda está presente nas mais variadas tradições, sendo as mais recorrentes as relacionadas ao casamento, onde as noivas muitas vezes utilizam as moedas de forma figurativa na demonstração do seu dote.

Os costumes associados á sorte também podem estar intimamente ligados ao dinheiro e por isso muitas são as simpatias que apresentam a moeda como elemento principal.

Na imagem podemos ver uma moeda com a representação da Rainha Elizabeth I, com o valor de um Shilling que foi utilizada como adereço.

Isabel de Inglaterra

 

Elizabeth I reinou durante 43 anos na chamada “Era do Ouro” onde a Inglaterra teve um dos seus maiores crescimentos económicos. Também chamada de “Rainha Virgem” subiu ao trono com 25 anos em 1558.

Com uma personalidade forte e um grande charme não era difícil seduzir os homens da corte e embora nunca tenha decidido casar, ser cortejada era um dos seus maiores desejos.

 

A medida que a idade lhe levava os encantos Elizabeth começou a ficar obcecada com a beleza, usava perucas que para além de esconder os seus cabelos brancos acompanhavam os tons das vestes, as mãos e o rosto eram pintadas com cerude (uma mistura de vinagre com chumbo que lhe dava um tom branco e uniforme mas que era extremamente corrosivo), os lábios eram pintados com cera de abelha e tintura de modo a ficarem vermelhos e os olhos eram delineados.

Dizem que arranjou demorados processos de vestir e despedir que demoravam mais de 4 horas tal não era a sua vaidade e que as damas que a acompanhavam era obrigadas a vestir apenas branco e preto enquanto ela chamava a atenção com os seus tecidos coloridos.

Embora vaidosa a rainha Elizabeth dedicou a sua vida á pátria, derrotou a frota espanhola e a sua Invencível Armada em 1588, desenvolveu o mundo das artes com especial atenção para as artes literárias onde se destacam nomes como William Shakespeare, Edmund Spenser e Christopher Marlowe. Levou Inglaterra na exploração além-mar e dinamizou o comercio e a industria.

“Men fight wars. Women win them.”

– Rainha Elizabeth I

 

 

Faianças

Chá e Deuses

bandeja indiana antiga

Cinco batidas ritmadas no velho relógio de parede.

Fiquei alerta, pouco depois a porta do escritório abriu-se.

Ele olhou para mim e perguntou:

– Os trabalhos estão feitos?

– Quase, quase… respondi, mas com o olhar já perdido na outra mesa onde o chá me esperava.

– Vá, faz uma pausa e vem lanchar, chamou-me risonho.

Levantei-me e observei o ritual:

A toalha bordada, as chávenas de porcelana colocadas frente a frente com as pequenas colheres ordenadas em cada um dos pires, os guardanapos dispostos ao lado, os pratinhos com pãezinhos e a bandeja com o bule fumegante e o açucareiro.

Já sentada, o bule foi levantado e na bandeja surgiram flores estranhas de curvas retorcidas e Deuses que pareciam dançar para mim bailados excêntricos em cerimónias complicadas.

O chá deixou de ser apenas chá… de dento do bule saíram melodias estranhas e cheiros de especiarias exóticas e da minha chávena surgiram pétalas de flores perfumadas que em diferentes cores esvoaçaram pela sala até o meu chá arrefecer…

(…)

Esta bandeja é característica de Moradabad na India, uma cidade situada nas margens do Rio Ramganga com cerca de 679 mil habitantes e que tem o costume de trabalhar os metais para fabricar peças como bandejas; potes, vasos; esculturas, joias e outras peças de decoração e utensílios.

Não se sabe ao certo como nasceu a tradição de trabalhar os metais, mas existem registos que dizem que o solo da região era propício para a formação de moldes de barro necessários para moldar o latão.

A técnica utilizada tem o nome de “cera perdida” e consiste em desenhar e moldar a peça em cera de abelha e cobri-la com argila como contra molde, posteriormente a argila vai ao forno para endurecer e a cera de abelha derrete, deixando espaço para inserir o metal fundido que ganha a forma pretendida. Em frio, a argila é partida e deixa o metal a descoberto.

A primeira exportação destas peças foi para o Reino Unido em 1857, uma vez que o primeiro interessado nesta arte foi um colecionador de nacionalidade inglesa. Ao verificar a rentabilidade deste ofício o número de artesãos cresceu continuamente.

Hoje Moradabad é conhecida como Peetal Nagri (Terra do latão) e as suas peças são exportadas para todo mundo, existindo no local mais de 600 exportadores e 5000 fabricantes.

Nesta bandeja de inícios do séc. XX de inspiração Hindu podemos ver uma representação da deusa Durga e do deus Hanuman.

bandeja indiana sec.19

Hanuman é para o hinduísmo um ser imortal, uma reencarnação da deusa Shiva, filho do vento e de Sri Anjanna, leal servo do Deus Sri Rama. Tem uma forma símio humanoide, é adorado por milhões de pessoas na India e simboliza a força, a positividade, a devoção e a dedicação.

Durga por sua vez é um dos deuses mais conhecidos do Hinduísmo e é retratada como “A Invencivel”, mulher de Shiva e por isso madrasta de Hanuman é ela quem caça os demónios, as forças do mal presentes na crença Hindu.

Shiva Indian Tray

 

É geralmente acompanhada de uma espada como símbolo de sabedoria, um tridente denominado de trishula, arma com a qual destrói a ignorância humana, a concha que representa o som universal (OM) e o tigre que insinua força, destruição e determinação.

No Hinduismo podemos encontrar os mantras: poemas em sânscrito, místicos e religiosos que são recitados ou cantados de forma repetitiva e que têm como objetivo auxiliar na meditação. Os mantras são escolhidos consoante o Deus a que se reza e consequentemente a ajuda necessária.

O mantra “Jai mata Kali kay mata Durge” é direcionado á deusa Durge e ajuda a ultrapassar obstáculos, a defender do mau olhado, do orgulho e dá força para combater ataques inimigos.

 

Este Post teve o contributo do blog: https://rekhasahay.wordpress.com/

 

 

Adereços

Porta-moedas e a Loba de França

Porta moedas séc XVIII

Lembro-me daquele final da tarde de um lindo dia de outono, os dois no terraço sentados nas cadeiras de balouço olhando a serra, em que ele me falava sobre o seu antigo amor:

– Éramos diferentes, dizia ele

– Muito diferentes? Diferentes como? Perguntava, tentando conhecer aquela mulher através das suas palavras.

– Well, todas as pessoas são diferentes, mas nós tínhamos culturas diferentes, a nossa língua mãe era outra e….

– E então, não se entendiam?

– Claro que sim e muito bem. Mas sim, éramos diferentes!

– Até aí já percebi…. E as maiores diferenças quais eram?

– Aah, vou-te mostrar, levantou-se e contornou a casa desaparecendo do meu olhar.

Quando voltou, trazia com ele dois pequenos objectos e colocando um em cada mão tentou explicar-me daquela maneira tão própria.

– Este sou eu, mais sério, mais austero se calhar mais simples…, abrindo uma mão e mostrando-me um porta-moedas antigo de pele.

E de seguida, exibindo na outra mão inconscientemente elevada, um porta-moedas trabalhado em malha de prata:

– E este… era ela…mais divertida, mais imaginativa e mais complicada também!  

– Dizem que as pessoas diferentes se complementam, respondi-lhe eu percebendo que neste caso as diferenças traziam positividade à relação.

– Oh sure, yes!…, e olhando para o verde da paisagem em nossa frente continuou:

– Desde então, sinto o meu coração incompleto e a minha alma esvaziada…

“All good things must come to an end”.

 

Com o aparecimento das moedas apareceram também os recipientes que serviam para as transportar, sendo estes mais simples quanto mais antigos.

O porta-moedas mais antigo de que há conhecimento foi encontrado junto de uma múmia natural europeia conhecida como “Otzi the Iceman” com 5300 anos. Podemos encontrar também sinais destes objectos nos hieróglifos egípcios e são frequentemente vistos na Grécia antiga e mais tarde na época medieval.

É de ressaltar que as civilizações antigas não utilizavam bolsos uma vez que estes apareceram apenas no séc. XVII, transportando-se as bolsas presas na cintura normalmente acopladas aos cintos.

Estes porta-moedas são assim uma fase inicial das malas e carteiras utilizadas hoje em dia e tal como estas, tinham uma função prática e estética.

Podemos encontrar no decurso da História, varias referências que demonstram a utilização destes itens e em alguns casos foram até protagonistas como no escândalo da corte Francesa “Tour de Nesle Affair”

Isabella de França e irmãos.jpg

Em 1314 numa visita a França, Isabella de França (também chamada de Loba de França) e mulher de Edward II de Inglaterra, levou 3 bolsas de seda para entregar como presente aos seus três irmãos Louis, Philip e Charles, também filhos de Philip IV.

Mais tarde noutra visita, a rainha apercebeu-se que dois cavaleiros franceses, Gautier e Philippe d’Aunay utilizavam duas dessas bolsas nas suas vestes e imediatamente comunicou ao seu pai que mandou investigar o facto.

Ao que parece, as princesas estavam a cometer adultério, os cavaleiros envolvidos foram condenados à morte e as princesas presas perpetuamente no castelo Gaillard.

Os porta-moedas apresentados na imagem datam do séc. XIX, sendo um de prata (de mulher) e outro de cabedal (de homem). Eram utilizados no interior dos bolsos como uma forma pratica de guardar as moedas. O seu sistema de fecho é idêntico e característico desta altura, podendo encontrar-se ainda estes  objectos em variados tipos de malhas, materiais e enfeites.

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Documentos

Elizabeth Bathory – A Condessa Sangrenta – Halloween

Não há nada como uma boa história de terror, dizias tu!

– Em dias de chuva esta serra fica magnifica para uma boa história de Halloween. 

Percebi, sentei-me e mesmo antes de ouvir já podia sentir um leve arrepio a percorrer o meu corpo. Já sabia que não ia dormir naquela noite mas, mesmo assim aconcheguei-me na manta de lã e acenei com a cabeça mostrando que estava preparada.

 

No Séc. XVI nascia a lenda de uma Condessa Húngara que torturava e matava jovens raparigas para manter a sua juventude e beldade.
Embora se suponha que muitos dos contos sejam pura imaginação, existem testemunhos verídicos de algumas das crueldades praticadas pela Condessa que é hoje conhecida como uma das mais antigas Serial Killer da História.

Elizabeth Bathory

 

Elizabeth Barthory, nasceu a 7 de Agosto de 1560 na Hungria. Desde o início da sua vida que se apresentou como uma mulher muito inteligente mas perturbada, teve vários problemas psicológicos, entre eles, ataques de raiva, epilepsia e distúrbio bipolar. Sabia falar, ler e escrever em quatro línguas diferentes e aos 11 anos já estava noiva de Ferenc Nádasdy.

 

 

Casaram dois anos depois e foi aí que a lenda começou. Ferenc era comandante das tropas Húngaras e passava longos períodos fora de casa, Elizabeth aproveitava esses momentos para torturar as suas servas, embora mais tarde o seuBrasão Hungria marido se tenha juntado a ela nestes comportamentos.
Os seus métodos de tortura eram variados e evolutivos, variavam desde o espancamento, a espetar alfinetes ou até deixar as vitimas morrer congeladas no inverno húngaro.
Posteriormente Elizabeth associou o sangue das suas vítimas à sua juventude e beleza começando a tomar banho no sangue de raparigas virgens, não chegando para a satisfazer começaram os atos de vampirismo, ela bebia o sangue das jovens.
Diz-se que nas masmorras do seu palácio havia uma jaula pendurada feita de lâminas onde eram colocadas as vítimas que ao contorcerem-se de dor faziam o seu sangue jorrar para cima da Condessa que tomava banho e saciava a sua sede.

Teve 6 filhos, o primeiro, um bastardo filho de um camponês. Manteve relações íntimas com duas mulheres uma delas alquimista e praticante de magia negra.

Sobre proteção da sua abastada família nunca foi julgada pelos seus crimes, mas foi enclausurada no castelo da família até ao dia da sua morte.

Julga-se que matou mais de 650 jovens entre 1585 e 1609, muitos dos corpos foram escondidos sob o soalho do palácio ou enterrados nas masmorras.

Na imagem acima apresenta-se o brasão de armas da Hungria representado no livro “The ideal Postage stamp álbum” de 1914, Standley Gibsons LTD

 

 

 

Lazer

Uisge beatha – Johnnie Walker

Johnnie Walker Whisky 1960

Nos serões de inverno a seguir ao jantar, seguíamos para a sala de estar e saboreando uma bebida, dávamos oportunidade às palavras.

Nessa noite, sentado no seu sofá preferido junto à lareira sem nada dizer, fazia rodar o copo com whisky junto às narinas inspirando o seu aroma.

– Hoje não conversa connosco? Perguntei, nada habituada aquele silêncio.

– Yes, of course. Hoje encontrei dentro de uma caixa a minha roupa da tropa e agora de repente sinto o cheiro da minha terra…

– Encontrou a sua farda da guarda real inglesa?

– Sim, ainda me lembro: Durante duas horas, dez minutos completamente imóvel e de seguida quinze passos a marchar!

E continuou: – Já vos contei que um dos meus colegas foi suspenso porque pisou uma senhora que…

Sim, já nos tinha contado mas não nos importámos, até porque a seguir queríamos ver o uniforme da Queen’s Guard…

(…)

É difícil determinar a data em que se iniciou a produção de whisky, mas podemos saber que a sua inicial função era essencialmente medicinal, muitas vezes denominado de aqua vitae (água da vida) foi produzido por monges onde misturado com plantas e especiarias era dado aos enfermos. Os mais antigos registos do fabrico desta bebida datam do séc. 15 na Escócia, hoje pode ser escrito Whisky, Whiskey ou até Uísque.

Esta bebida provem de um complexo processo de fabrico apurado ao longo dos anos com múltiplas variáveis:
Desde os grãos e/ou quantidade utilizada dos mesmos para o malte, o tipo de madeira em que foi envelhecido se é ou não originado a partir de uma ou mais destilações e o país de fabrico são algumas das alternâncias que dividem o Whisky em diferentes classes como Scotch, Japonese ou Irish Whisky, Single Malt ou Blended, Bourbon ou Tennessee e ainda Rye Whisky.

Em 1819 Jonh Walker abriu uma mercearia onde vendia este elixir da vida. Sendo ele próprio também consumidor e apreciador detetou uma falha na produção do whisky, ele não era consistente o que significava que o sabor de ontem não era o mesmo de amanhã e aproveitou a oportunidade para se dedicar ao fabrico da sua própria bebida através da mistura (Blended) de maltes simples.
Hoje é a marca mais vendida no mundo com representação em mais de 200 países e com um volume de vendas superior ao de 10 milhões de caixas por ano.

A sua primeira marca comercial denominava-se ”Old Highland Whisky” e foi produzida já sobre a diretoria do seu filho Alexander no ano de 1857.

Em 1909 nasceram as conhecidas marcas Red e Black lable vendidas ainda hoje.

Ao longo dos anos a marca foi crescendo e evoluindo apresentando hoje uma grande variedade de whiskeys acrescentado as cores: Azul, Verde, Ouro, Platina e ainda Edições especiais que podem chegar a preços de 2000€ por garrafa.

Na foto apresenta-se uma Black Label de 1960.

Johnnie Walker é agora propriedade de Diageo que possui também as marcas Smirnoff, J & B, Gordon´s, Pillsbury e Burger King.

 

“Never delay kissing a pretty girl or opening a bottle of whiskey.”
― Ernest Hemingway

 

Locais onde o tempo tem história

Feira da ladra – Lisboa

feira da ladra em Lisboa

Nome: Feira da Ladra

Local: Entre o Campo de Santa Clara e a Igreja de São Vicente de Fora – Lisboa

Periodicidade: Bissemanal, 3ªs e sábados

Horário: 9H00 às 18H00 (este horário não é exacto podendo variar conforme a altura do ano)

O que encontrar: Além dos objectos normalmente vendidos por feirantes, encontram-se também antiguidades, velharias, artigos de coleccionismo e artesanato. No local, existem também algumas lojas de antiguidades e restaurantes.

Curiosidades: Esta feira é a maior e mais antiga de Lisboa. Inicialmente no séc. XIII tinha como nome “Mercado Franco de Lisboa” e situava-se junto ao Castelo de São Jorge, mudou diversas vezes de local e lentamente deixou de vender produtos tradicionais de mercado para passar a vender maioritariamente artigos velhos e usados.

Não se sabe a origem do nome de “Feira da Ladra”, havendo muitas teorias como por exemplo:

Derivação da palavra “lada” que no português antigo significava “margem do rio”;

“Saint-Ladre”  que era o nome dado na Idade Média às feiras em França;

“Al Hadra” que em árabe significa “Nossa Senhora” ou simplesmente porque

por lá se vendem peças usadas provenientes de vários donos e não existem certezas de como foram adquiridas…

Esta feira está situada na zona antiga no bairro de São Vicente entre a GraçaAlfama e ao seu redor existem diversos monumentos entre eles, o Panteão Nacional tendo também junto de si o Jardim Botto Machado que oferece vista sobre o Rio Tejo.

 

 

Adereços

Fosforeira Rose & Brough

Fosforeira de prata


 

 

Reconheço-te,

Já viajei contigo no tempo.

Deste-me luz, deste-me calor…

Sei o que foste e de quem foste…

És testemunho de vidas passadas,

Declaração das vidas presentes!

 

 

 

Embora o fogo seja companheiro do homem desde os primórdios da história, o fósforo semelhante ao que hoje conhecemos só foi encontrado em 1669 graças à Alquimia e só em 1826 teve início a elaboração de um produto final semelhante aos de hoje.

A Alquimia praticada na idade média, vem de uma fusão de ciências como a Astrologia, a Filosofia, a Química e a Religião. Tinha como objetivo três grandes descobertas: Como transformar matéria em ouro, encontrar o elixir da vida e produzir vida humana artificial. Começava assim uma nova era de experiências e de descobertas importantes que contribuíram para o desenvolvimento da humanidade como hoje a conhecemos.

No ano de 1669, Henning Brand ao destilar uma mistura de ureia e areia na procura da pedra filosofal obteve um material branco que brilhava no escuro e ardia com uma chama intensa, assim se descobriu o fósforo como elemento químico.
Henning denominou-o de phosphŏrus (palavra em latim que significa fonte de luz, aquele que ilumina).

Mas foi em 1826 que o Inglês Jonh Walker descobriu a combinação química que ao ser colocada na ponta de um palito de madeira podia ser acesa por atrito em qualquer superfície porosa dando origem a um “protótipo” dos fósforos comumente utilizados e aos quais ele chamou de Congreves (inspirado nos foguetes de guerra inventados em 1808 por William Congreve)

Embora práticos, estes fósforos não eram seguros pois eram de fácil ignição, levando ao aparecimento das primeiras fosforeiras que podiam ser produzidas em variados tipos de metais ou porcelana de forma a impedir que o fogo causasse danos no utilizador.

As fosforeiras eram particularmente desejadas pelos fumadores fazendo delas um acessório de luxo. Podemos encontrar estes objetos em ouro e prata e ornamentados com pedras preciosas, trabalhados como se de uma joia se tratasse.

A peça fotografada é original de Birmingham e pertence ao fabricante Rose & Brough do ano 1899 como pode ser notado nas marcas de contrastaria da figura abaixo.

Fosforeira Rose & Brough

 

“Do atrito de duas pedras saem faíscas, das faíscas vem o fogo e do fogo brota a luz.”

Victor Hugo