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Estou a partilhar contigo…

Anda, vem comigo… Chamava-me devagarinho.

Seguia-o até ao escritório onde se sentava na sua poltrona desgastada pelo tempo e eu apressadamente procurava um lugar para me instalar.

Ali havia odores fortes e exóticos que me atiçavam os sentidos.

Nas paredes os mapas antigos prometiam-me passeios a lugares distantes e os velhos livros  provavam-me que algum dia também eles me levariam além daquelas quatro paredes.

De cachimbo já na mão, dava a primeira baforada, estava prestes a começar mais uma expedição…

Nunca sabia onde iria…. Levar-me-ia até Inglaterra, India ou à Africa ou apenas até ao cimo da serra?

Quem iria comigo nessa jornada? Seria ele ou alguém que lhe era familiar ou conhecido?

Só tinha uma certeza, a viagem duraria até que o cachimbo deixasse de fumegar!

O cachimbo apresentado foi fabricado pela Frankau & Cº sob a marca BBB – 1876.

Trade Mark 1876
Trade Mark BBB – 1876

Adolph Frankau fundou a sua empresa após ter chegado a Londres em 1847 tendo-se tornado importador de tubos de espuma e produtos relacionados com tabaco.

Morre em 1856 ficando a sua viúva com a empresa e à frente da mesma Louis Blumfeld, um jovem que Frankau tinha acolhido em criança e que agora com 18 anos investe nas relações comerciais com outros países internacionalizando a empresa, através dessas parcerias comerciais acaba por se tornar fornecedor exclusivo de tubos Cherry Wood da Roop cobrindo mais tarde o território do Reino Unido e as suas colónias.

Diversas marcas de tubos estão relacionadas directamente com a Frankau & Co como Capt. Kidd, Fairway, Frankau, Glokar, Major Daff, Snap-Fit e BBB.

bbb
Imagem retirada da internet

Com o volume de negócio torna-se importante não só comercializar mas também fabricar os seus produtos e em 1898 abre uma fábrica em Homerton – High Street. É nesta altura que Frankau & Co também produz Calabash.

Imagens retiradas da internet

Importando as cabaças da África do Sul mas sendo cada vez mais difícil a sua importação, começa a fabricar as suas próprias cabaças usando apenas espuma do mar para fazer o fogão enquanto que alguns outros fabricantes usavam gesso ou até amianto. Esta produção de cabaças resiste até à guerra de 14/18.

Frankau & Co é em 1920 integrada na A. Oppenheimer & Co Ltd.

Tipo de cachimbos

O cachimbo é composto por um fornilho espaço onde se queima o tabaco e pela piteira que é o tubo por onde se aspira o fumo e existem diversos tipos de cachimbo dependendo dos formatos e dos materiais utilizados.

A origem do cachimbo é oriunda dos povos indígenas americanos e afro-americanos passando pelo sagrado feminino (depositário das ervas) e pelo sagrado masculino (tubo de fumo) e também pelo mundo terrestre (folhas e ervas) e mundo celeste (fumo).

Lenda A mulher Búfalo Branco

“Dois lakotas andavam numa colina, até que viram uma mulher muito bonita, vestida com peles brancas, trazendo nos ombros uma bolsa.

Um dos homens teve pensamentos impuros e disse ao outro, mas o outro avisou-o que seguramente aquela era uma mulher sagrada.

O homem com intenções impuras aproximou-se da mulher, e nesse momento uma grande nuvem envolveu os dois. Quando a nuvem se dissipou a mulher estava em pé e do homem apenas tinha sobrado o seu esqueleto e serpentes que o contornavam.

A mulher disse ao outro homem:

” Considera aquilo que vês. Quem só vê a beleza física, jamais conhecerá a Beleza Divina.”

“Vá até seu chefe Chifre Oco Em Pé e diga-lhe que prepare uma tenda espaçosa para abrigar todo o seu povo e aguardar a minha chegada. Quero passar-lhes algo muito importante.”

O homem comunicou o acontecimento a Chifre Oco Em Pé, que prontamente mandou construir uma grande tenda.

Ao terminar a tenda e após reunir o seu povo, a mulher misteriosa chegou. Ela aproximando-se tirou a sua bolsa dos ombros e, segurando com ambas as mãos entregou-a ao chefe dizendo:

“Cuide desta bolsa e ame-a sempre. Ela é muito sagrada, e deves tratá-la como tal. Dentro dela há um cachimbo sagrado para o teu povo enviar as suas vozes ao Grande Espírito – o teu Pai e Avô.”

Essa mulher apresentou-se como Mulher Búfalo Branco. Ela explicou o procedimento ritual para o uso do cachimbo, e os sete ritos em que o cachimbo deve ser usado. No final, quando ia embora falou:

” Com este cachimbo, os seres de duas pernas aumentarão em número e a eles virá tudo o que é bom. “

Dando a volta pela cabana, na direção do movimento do Sol, ela foi-se embora, depois de caminhar por uma curta distância olhou para trás para o povo e sentou-se. Quando voltou a levantar-se, o povo assustou-se, pois ela transformou-se num novilho de búfalo vermelho e castanho. O novilho andou por uma pequena distância, deitou-se e rolou no chão, e quando se levantou era um búfalo branco. O búfalo branco andou por uma pequena distância, deitou-se e rolou no chão, e quando se levantou, era um búfalo negro, este afastou-se e desapareceu no alto de um monte.”

“I believe that pipe smoking contributes to a somewhat calm and objective judgment in all human affairs”

Albert Einstein
Albert Einstein
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A ascensão das Damas

Pequenas no seu passo incerto

Percorriam devagar os caminhos

Eram fracas e dispensáveis!

Pouco a pouco foram crescendo

Já tinham voz e aconselhavam

Davam-lhe a mão para caminhar.

Delicadas ganharam força

Movimentavam-se graciosamente!

Já se tinham libertado

Até se sacrificavam se necessário

Passaram a ser gente…

 

Pocket Chess

A peça em cima é um xadrez de bolso e bloco de rascunho do final do século XIX produzido pela empresa Thomas de la Rue & Co Ltd.

 

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Judit Polgar – Imagem retirada do Google

 

Susan, Sofia e Judit Polgar foram três irmãs que se destacaram num desporto predominantemente masculino.

Como a própria “Dama” do jogo que jogavam que ascendeu ao seu lugar lutando no campo de batalha lado a lado com figuras masculinas, tornando-se a figura de maior valor relativo, também elas especialmente a irmã mais nova Judit ascendeu ao maior título mundial no Xadrez.

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Susan, Sofia e Judit Polgar – Imagem retirada do Google

O seu pai, psicólogo de profissão tinha desenvolvido a teoria de que o treino é mais importante do que o talento inato no desenvolvimento de um génio e aplicou-a nas suas filhas.

Judit nasceu em Budapest em 1976 e fez a sua aprendizagem em casa começando a jogar aos 5 anos, em 1988 venceu o campeonato mundial de menores de 12 anos. Ganhou a medalha olímpica nos anos de 1988 e 1990 e aos 15 anos tornou-se a primeira Grande Mestre Internacional estando entre os 10 melhores jogadores do mundo e derrotando jogadores de renome como Boris Spassky  (1994), Kasparov (2002).

 

Judit Polgar fechou o ciclo profissional em 2014 com 38 anos sendo-lhe atribuída a seguinte frase, “Gosto de como me educaram. Mas a minha vida não é só Xadrez.

 

Não se nasce génio, torna-se um.”

Frase atribuída ao pai de Judit Polgar – Lazlo Polgar
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Sweeney todd – o amor por detrás do ódio

Olho-me ao espelho e enquanto ensaio o meu sorriso a única coisa que vejo és tu… Não sei quando me vou voltar a cruzar contigo mas sei que quando acontecer quero simplesmente estar no meu melhor e principalmente quero estar á tua altura, ter todas as respostas e todas as perguntas, não quero perder de vista uma única palavra, quero conseguir decifrar-te no primeiro olhar e quem sabe deixar que tu me percebas ao segundo.

Quero que notes a minha presença, quero ser o foco da tua atenção e discretamente vou mostrar-te que és o meu. Vou sorrir de forma tímida mas apenas porque é a primeira vez que me faço notar e vou esperar que retribuas com esse que é o sorriso mais inocente e deslumbrante do mundo.

Quem sabe não me passo a cruzar contigo todos os dias? E todos os dias vou estar preparado para ti….

simplesmente para ti!

 

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Lâminas Inglesas de barbear de 1800´s

 

Na Grécia antiga dava-se bastante importância á estética masculina e foi aqui que nasceu a necessidade de existir alguém especializado nesta arte de cortar, aparar e cuidar não só o cabelo mas todo o rosto masculino.

A importância do cabelo e barba era tanta que os Sábios a utilizavam para mostrar conhecimento e sabedoria sendo punido aquele que lhe tocasse sem a devida autorização.

As primeiras evidências da barbearia semelhante á que hoje conhecemos têm origem no séc. XVII onde os barbeiros devido às suas claras habilidades manuais não eram apenas barbeiros mas também, dentistas, barbeiros-cirurgiões, veterinários, curandeiros e ainda comerciais viajantes que faziam deles bons contadores de histórias e por isso um ótimo entertainer que conseguia facilmente criar um espaço de socialização.

Com o desenrolar do tempo as cidades começaram a ter as suas próprias barbearias e para muitos foi uma grande oportunidade de primeiro negócio.

Eram locais de variadas funções mas todas eram obrigatoriamente um espaço de paragem para socialização entre os homens da sociedade, sendo utilizadas até para reuniões de negócios ou para encontros da própria máfia.

A primeira cadeira de barbeiro com lugar para os pés e bastante semelhante às cadeiras ainda utilizadas hoje apareceu no ano de 1850 e foi patenteada em 1870 na cidade de St. Louis, Estados Unidos.

E por falar em cadeira de barbeiro quem não se lembra do  famoso basweeneytodd_01rbeiro demoníaco da rua Fleet”?

Sweeney todd nasceu em londres no ano de 1748 e o seu nome era Benjamim Barker, foi aprendiz de barbeiro e como era comum na época também teve acesso a conhecimentos médicos como anatomia e outros menos especializados como por exemplo carteirista que aproveitava o momento relaxante dos clientes para os roubar de forma subtil.

 

Abriu a sua própria loja na rua Fleet e casou com uma linda jovem que era também cortejada pelo juiz da cidade.

Ao ser acusado de roubo e com a inveja do Juiz ele mandou-o para uma prisão Australiana durante 15 anos fazendo com que a sua esposa em desespero se suicidasse. Benjamim volta á cidade procurando vingança e é aqui que nasce a lenda digna de concorrência com “Jack o estripador”.

É uma lenda londrina que fala em mais de 160 mortes.

Benjamim voltou á sua loja na rua Fleet e a senhoria ainda o esperava com todas as suas lâminas guardadas e mais alguns segredos.

Foi na sua própria barbearia que ele degolava os seus clientes e com uma alavanca especial na sua cadeira abria um alçapão fazendo o corpo cair para a cave.36672398_10156583783021204_7141860830278057984_n

A sua amante e dona da loja Sra Loveet utilizava os corpos para fazer as suas tortas, as partes que não eram possíveis de utilização eram deixadas na cave criando ao longo de um tempo um cheiro nauseabundo que levou as autoridades á investigação e consequentemente á detenção do casal.

A primeira vez que a história foi adaptada para o entretenimento foi em 1846 com um romance de nome “The string of pearls” e mais tarde foi levado para os palcos como “ O barbeiro demoníaco da rua Fleet”.

 

“Antes de sair á procura de vingança, cave duas covas” – Confúcio

 

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Inocência perdida

Adorava aquela sala, figuras de animais imponentes que só ali podia ver de tão perto. Havia peças feitas de osso, de pele ou de marfim. Para mim eram provas das suas existências em lugares longínquos que na minha imaginação visitava.

Ele orgulhoso mostrava-me as peças herdadas da família. Foi o meu avô que trouxe de África ou ofereceu-me o meu pai quando chegou daquela viagem… Eu sorria-lhe grata por tudo o que ele me dava a conhecer.

Aquela peça destacava-se, no meu imaginário grupos de elefantes passeavam calmamente pelas savanas africanas numa vida tranquila ora comendo vagarosamente ora bebendo nos grandes rios sob um grandioso pôr de sol.

Marfim (3)

Nunca me contou a triste verdade, talvez porque nunca o tenha pensado ou então porque eu era jovem demais para o saber.

Mas um dia ela surgiu agressiva, brutal derrubando os meus sonhos e acabando com a minha inocência expondo-me cruelmente aos fatos. Não conseguia ver tudo o que havia para ver tal o horror dessa verdade.

Desde esse momento sempre que olho para essa peça não vejo a beleza que via, não lhe toco como tocava, sinto apenas dor e guardo-a comigo para nunca me esquecer e poder mostrar aos outros, não a beleza como me mostraram, mas a desumanidade.

 

Imagino a vida daqui a vários anos…

Vida haverá?

Quando tenho o que tenho?

Quando mato por matar…

Quando me deslumbro com o mal?

 

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Imagem retirada do Jardim Zoológico de Lisboa

 

Diz a lenda que numa cidade viviam sete sábios cegos, que davam conselhos a todas as pessoas que os consultavam para resolver seus problemas. Os homens eram amigos, mas mantinham uma competitividade acirrada, e acabavam discutindo o tempo todo para evidenciar quem era mais sábio.

Um dia, depois de uma conversa cansativa sobre a Verdade, o sétimo sábio aborreceu-se e resolveu ir embora para as montanhas, e disse aos amigos:

– Somos homens cegos e talvez possamos ouvir e entender melhor que as outras pessoas a verdade da vida. Mas vocês ficam discutindo como se quisessem ganhar uma aposta, um jogo. Estou cansado dessa competição! Vou-me embora.

Um dia, um comerciante chegou à cidade montado num belo elefante africano. As pessoas nunca tinham visto um animal daquele porte, nem mesmo os sábios cegos conheciam aquele animal, e todos saíram à rua para vê-lo. Os cegos rodearam o elefante para tocá-lo e o primeiro sábio apalpou a barriga do animal e disse:

– É muito parecido com uma parede!

O segundo sábio, tocando nas suas presas, corrigiu-o:

– É muito parecido com uma lança!

O terceiro sábio, que segurava a tromba do elefante, retrucou:

– É muito parecido com uma cobra!

A mão do quarto sábio acariciava o joelho do elefante, e o sábio contestou:

– É muito parecido com uma árvore!

O quinto sábio gritou, quando mexia nas orelhas do elefante:

– É muito parecido com um abano!

O sexto sábio irritado rebateu:

– Todos vocês estão errados! O elefante é muito parecido com uma corda! – disse, tocando a pequena cauda do elefante.

E, alvoroçados, os seis sábios ficaram discutindo. Até que o sétimo sábio cego, descendo das montanhas, apareceu conduzido por uma criança. Ao ouvir a contenda, pediu ao menino que desenhasse no chão a figura do elefante. Quando tateou os contornos do desenho, percebeu que todos os sábios estavam certos e iludidos ao mesmo tempo. Agradeceu ao menino e afirmou:

– É assim que os homens se comportam perante a verdade. Conhecem apenas uma parte, pensam que é o todo, e continuam tolos!

(história adaptada de Heloisa Prieto e John Godfrey Saxe) – http://www.esalq.usp.br/visoes-da-ciencia/vc-a-lenda

Elefante-africano (Loxodonta africana)

É o maior animal terrestre, o seu peso varia entre 4 a 6 toneladas e mede em média 4 metros sendo o macho maior que a fêmea.

Este animal pode levantar até 10 toneladas e ingere em adulto entre 150 a 300 kg de vegetais por dia.

O elefante africano vive em família e é a fêmea mais velha que lidera. A comunicação é efectuada através de sons.

O intervalo mínimo entre nascimento é de 4 anos e as crias são amamentadas durante 2 anos.

Todas as fêmeas participam na proteção das crias.

Esta espécie como muitas outras está em via de extinção sendo a causa principal o tráfego das suas presas. Existem ainda outros fatores que contribuem para o declínio da espécie como diminuição do seu habitat.

A utilização do marfim para o fabrico de peças e joias não é de hoje e pode-se dizer que já na pré-história este material era utilizado pelas populações devido à sua beleza e pelo seu fácil manuseamento e resistência embora com uma conotação muito distinta da de hoje.

A convivência entre elefantes e humanos sempre foi complicada uma vez que a sua força bruta pode levar à destruição de colheitas, aldeias e até vidas, assim, num mundo “saudável”  e equilibrado a caça seria um forma de manter a população de elefantes controlada, as aldeias a salvo e ainda contribuía para a alimentação por vezes escassa das tribos residentes. As presas eram retiradas ao animal caçado e exibidas como um trofeu onde o caçador mostrava a audácia e a coragem por ter enfrentado a fera e ter ganho, mas com a exportação e os preços elevados da venda do Marfim essa caça deixou de se fazer por necessidade e sim por dinheiro levando à morte de centenas de animais com um único propósito: o lucro!

Para a preservação desta espécie, a proibição da comercialização de peças de marfim tem sido um dos instrumentos mais eficazes, existindo já em inúmeros países.

Em Portugal é proibido comercializar peças que tenham menos de 40 anos sendo necessário que estas estejam devidamente certificadas.

A proibição da comercialização do marfim chegou agora a países como a China e o Reino Unido, indo este país impor uma das mais rigorosas proibições deste comércio.

É fundamental perceber que sem a compra não existe venda e consequentemente podemos salvar a vida destes e de outros animais que fazem a nossa Terra o planeta mais especial e único de todo o universo.

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“The greatness of a nation can be judged by the way its animals are treated.”

Mahatma Gandhi

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A caixa dos segredos – Maki-e

 

Caixa Maki-eGuardo o que é magico, só o que é magico…

Ela não é dourada mas tudo o que guarda é o que de mais valor tenho….

Guardo a minha primeira visão de ti mas também a ultima…

Guardo o meu amor e a minha esperança, que um dia possamos recuperar tudo o que aqui guardei…

Guardo para todo o sempre, na minha caixa dos segredos.

Uma das técnicas japonesas que mais impressionam o Ocidente é a utilização de laca na decoração de diversos materiais como madeira ou porcelana. Estes objetos cativam a atenção não só pelo maravilhoso brilho originado pela polida superfície da laca mas pelo elevado número de pormenores minuciosos que são inscritos pelos artesões nestas peças muitas vezes com recurso a materiais preciosos e totalmente fabricados de forma manual.

Dentro da utilização da laca existem diversas técnicas que embora tenham uma base idêntica vão se distinguir pelos materiais que são utilizados nos acabamentos ou pela forma como estes são inseridos na peça.

A seiva extraída é utilizada como um verniz, é aplicada camada a camada (com longos períodos de secagem em condições controladas a nível de calor e humidade) formando uma cobertura polida e resistente que muito se assemelha ao plástico artificial, dependendo da técnica e do artesão um objeto finalizado pode levar mais de 20 camadas de laca.

A seiva retirada é translucida pelo que são inseridos pigmentos, os mais comuns nesta técnicas são os pigmentos vermelhos ou pretos.

É aqui que podemos dividir este processo em diferentes técnicas, entre as mais conhecias estão:

HarigakiSobre um fundo de uma só cor os efeitos são originados pela passagem de um objeto pontiagudo que retira a laca do local pretendido.

kimmaO mesmo processo acima descrito mas o espaço livre é preenchido com laca de outra cor (sendo muito usual ver se o vermelho e preto).

heidatsu São inseridos diversos materiais na decoração como metais preciosos ou semi-preciosos, coral, porcelana, marfim e mais comum no Japão carapaça de tartaruga.

maki-eNesta tecnica, muito apreciada e extramente comum dentro da decoração japonesa, o objeto é envernizado de uma só cor sendo os motivos feitos com uma laca de cor contrastante e finalizada com pó de ouro.

Nas peças mais elaboradas podem ser utilizadas mais do que uma técnica.

laca japonesa
Técnicas:  hiramaki-e, takamaki-e, tsukegaki, harigaki, chinkin, chingin y nashiji-e (http://revistacultural.ecosdeasia.com/la-laca-japonesa-urushi-i-definicion-elaboracion-y-tecnicas/)

Urushi (Rhusvernicifera ou Toxicodendron vernicifluum)  é o nome da arvore de onde é recolhida a seiva, cresce apenas nas zonas costeiras da China, Japão e Coreia tendo a particularidade de ser extremamente venenosa.  A sua seiva pode provocar graves lesões na pele se em estado liquido e por isso tem de ser manuseada com extrema cautela.

A seiva é tão resistente quando seca que pode mesmo ser utilizada para reparação de cerâmicas e madeiras.

Devido ao seu efeito de plastificação e á sua capacidade de envenenamento lento esta seiva foi em tempos utilizada por monges que acreditavam na Auto mumificação conhecidos como Urushi tree monks. Os monges mantinham uma dieta de bagas e sementes durante três anos para perderem toda a gordura corporal e posteriormente bebiam chá feito da seiva de Urushi perdendo toda a água corporal pela diarreia e os vómitos causados, fechavam-se num túmulo na posição de lótus apenas com um tubo para respirarem e um sino que tocavam todos os dias para confirmar que ainda estavam vivos. Quando o sino deixa-se de tocar o tubo era retirado e o túmulo ficava fechado durante três anos. Se o monge conseguisse a sua auto mumificação era venerado com um Buddha.

 

A seiva ajudava não só na perda de líquidos, mas na plastificação do corpo e no envenenamento do mesmo que causava a morte e protegia o corpo da decomposição. Esta prática foi realizada durante mais de 1000 anos até ser proibida pelo governo japonês.

“Não há segredos que o tempo não revele” –  Jean Racine

 

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Pé descalço

Nem todas as casas da minha infância tinham tesouros dourados, havia casas cujas riquezas eram as vivencias de quem lá vivia e as suas histórias contadas que me levavam imaginariamente até aos mesmos lugares e aos mesmos tempos fazendo-me trabalhar, sofrer, rir e cantar com elas.

Ela era velhinha com os cabelos cheios de nuvens de chuva miudinha, olhos brilhantes de recordações e coração cheio de carinhos.

Todas as tardes elas a visitavam e sentavam-se à volta da mesa redonda.

No Inverno, o lume tapado aquecia-lhes os corpos e as memórias avivam-se em lembranças.

Naquela tarde invernosa também eu lá estava vinda da escola de ouvidos bem à escuta para mais uma lição de vida.

– Naquela altura, dinheiro havia pouco! Todos tínhamos de trabalhar. Dizia uma delas.

– Eu comecei a trabalhar tinha sete anos… apanhava alfinetes em casa da D. Joaquina. Dizia uma das mais novas.

Alfinetes

Apanhar alfinetes? Mas que tarefa era essa e para quê? Haveria assim tantos alfinetes para apanhar? Enfim, que história engraçada estavam elas a contar…e mordiscando um pedaço de pão continuei a ouvir.

– Isso não era trabalho maninha! Dentro de casa alheia à procura de alfinetes. Bem, sempre te davam uns tostões… respondia conformada a mais velha.

– Não fazia só isso, ia também fazer recados, buscar linhas, entregar roupa…

– Andávamos descalças por todo o lado desde a serra à cidade… continuava a mais velha.

– Os meus primeiros sapatos comprei-os eu com os tostões que ia ganhando lá na D. Joaquina. Lembrava a mais nova com um sorriso nos lábios vendo-se exibindo os seus primeiros sapatos.

– Todos nós tínhamos pouco, o António só teve sapatos quando foi para a tropa, as botas do exército… Disse a mãe abrindo os olhos que demoradamente tinha mantido fechados, demonstrando que escutava atentamente o que as filhas iam dizendo.

– Claro que eramos felizes, tínhamo-nos uns aos outros!!! Dizia uma.

– Sim, pois erámos!!! Respondia outra.

– Nunca nos faltou de comer!!! Mais outra que rapidamente respondia à mãe.

Nesta altura estavam todas a falar ao mesmo tempo e eu já não sabia quem dizia o quê mas também não era importante.

Importante mesmo é que eram felizes e eu naquelas tardes também era feliz  porque tinha o privilégio de partilharem comigo as suas recordações e sentimentos.

Pé descalço1
Foto retirada do Google

Durante muito tempo o povo português andou descalço, a pobreza assim o impunha e mais tarde o hábito.

Só a partir dos últimos anos da monarquia é que se tentou reverter esse costume através de manifestos e da proibição da entrada em Lisboa de pessoas descalças, mas sem grandes resultados.

Foi na década de 30 (século XX) que se erradicou das cidades esse costume através dos esforços do governo que decretou a lei nº 12073 em 1928 que publicava:

a) É proibido o trânsito de pessoas descalças na via pública das áreas das cidades,        que serão delimitadas por postura municipal;

b) As disposições poderão igualmente ser aplicadas a outras localidades por decisão dos governos civis;

c) A transgressão do disposto será punida com uma multa de $50 a 2$00. A reincidência será punida com o dobro da pena.

Em 1928 a Liga Portuguesa da profilaxia Social criou uma campanha nesse sentido, considerando o uso do pé descalço indecente e anti-higiénico, publicando nessa altura o livro “O Pé Descalço – Uma vergonha nacional que urge extinguir”.

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Em Outubro de 1928 atrizes do Teatro Maria Vitória em Lisboa ofereceram alpercatas feitas por elas a vários lisboetas sobretudo crianças.

Mas a lei e o seu cumprimento apenas se fez sentir nas cidades e os pobres tiveram de se calçar ou fugir para as zonas rurais onde o hábito se manteve durante muito mais tempo.

Em 1947 surgiu nova campanha de sensibilização onde se criou também programas de vacinação anti-tétano. Agora o problema já não era tanto a pobreza extrema, mas o hábito de andar descalço sendo sobretudo o Alentejo a persistir com o uso do pé descalço.

Pé descalço4

Estas  campanhas continuaram a nível nacional e regional e muitas pessoas foram  presas durante 1 ou 2 dias quando eram apanhadas descalças sobretudo nas cidades e nas vilas porque nas zonas mais rurais não havia tanta fiscalização, então viam-se pelos caminhos homens com botas penduradas ao ombro para serem apenas calçadas quando chegassem às vilas ou às cidades.

 

 

“I cried because I had no shoes until I met a man who had no feet”

Helen Keller