Adereços

Fechar a porta

Bengala_Etapa Vida

Eram várias de cores e formatos distintos, colocadas juntas abriam como um ramalhete de flores diferentes.

Ele tinha-as em exibição, orgulhoso dos seus antepassados e já me tinha contado algumas histórias sobre elas.

Naquele dia escolhi uma das que mais gostava e passeie-me brincando pelo longo corredor exibindo-me em passos exagerados.

– O que fazes? Não te ouço… Perguntou-me lá da sala, estranhando o meu desaparecimento.

A ouvir a sua voz a minha imaginação fez-me imitá-lo, primeiro em bicos dos pés para ser mais alta, não satisfeita com a parecença curvei as costas e como ele, apoiando-me na bengala apareci à porta da sala.

Sorriu descansado quando surgi à porta, afinal não estava a fazer nenhum disparate, desta vez não me tinha enfiado numa sala a remexer em algumas peças mais delicadas.

Mas o seu sorriso esmureceu ao mesmo tempo que os seus olhos percorriam a linha das minhas costas e se fixavam na bengala que trazia, de seguida os seus olhos viajaram até à janela fixando lá fora a paisagem.

Naquele dia não fiquei a saber o que ele pensou, mas tive uma leve sensação de abandono como se ele naquele olhar perdido tivesse seguido em frente sem me levar e tivesse fechado a porta.

Hoje, sem ter ouvido da sua boca a história daquela viagem imaginária, sei que ele estava a percorrer o teatro da vida onde os actores vão representando até terminar o seu papel, saindo depois do palco e fechando a porta porque a peça acaba, a temporada termina e o tempo não pára nem volta atrás.

 

Desde que o homem se ergueu sempre houve apoios para o seu deslocamento vertical, utilizando bordões para caminhar para seu auxílio nas caminhadas.

Durante os séculos XVII e XVIII eram consideradas símbolos de riqueza e importância, com a sua popularização no século XIX e início do século XX eram já acessórios de moda usadas pelo homem mas também em variantes mais delicadas pelas mulheres.

Era de tal modo considerado um acessório de moda que um bomem poderia ter para uso pessoal diversas bengalas de estilos e cores diferentes sendo usual o uso de cores mais claras para utilizar de dia e de cores mais escuras para usar à noite.

A bengala é composta pela haste e pelo cabo. Estes elementos podiam ser apenas de um material ou a bengala ser contituída com haste e cabo independentes e de materiais diferentes.

A haste geralmente era mais simples mudando consoante o material utilizado, geralmente madeira que poderia ser trabalhada e ter tratamento com cor.

Ao contrário da haste, o cabo era mais artístico e ricamente trabalhado, este podia ser de materiais muitos diferentes, porcelana, metal, tartaruga, marfim ou cristal. Algumas bengalas mais ricas tinham inclusivamente incrustadas pedrarias raras.

A bengala tinha outras funções além de apoio e acessório de moda, era muitas das vezes meio de transporte de caixas de rapé, porta-moedas,  relógios ou microscópios mas também como esconderijo de objectos mais perigosos como pistolas e espadas cujos donos queriam manter por perto.

 

Este acessório figura em muitos contos tradicionais estando associado umas vezes ao pobre (bordão) outras ao rico (bengala).

“O principe mendigo

Um principe encontrou uma rapariga muito linda e apaixonou-se por ella. Tornou-se tão grande o seu amor, que resolveu desposal-a e foi pedil-a ao pae. O pae era um mendigo, que pedia na estrada; quando ouviu o pedido do principe, disse-lhe que não acreditava na sua tenção, senão só no caso d’elle fingir-se mendigo e andar pedindo esmola um anno. O principe acceitou a condição e vestiu-se com os andrajos, botou ao hombro a sacóla, encostou-se ao bordão e partiu a mendigar. Ainda não era passado o anno, quando o mendigo pae da rapariga, lhe disse que acreditava n’aquella prova e que podia casar com a filha. Então o principe respondeu:

— Que achava agora mais gosto em andar pedindo, do que mesmo ser principe e do que casar com a mulher mais linda do mundo. E assim continuou e veiu a acabar na vida de pedinte.”

(Ilha de S. Miguel.)

 

“Memories are the best things in life, I think.”

Romy Schneider

 

 

9 opiniões sobre “Fechar a porta

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s