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Registos da Natureza – 1904

Todos os dias ela trazia sem eu saber um pequeno ser vivo para casa…

– O que trazes aí na mão? Perguntava-lhe desconfiada.

– Nada, nada… Escondendo mais um pequenino bicho que aqui em casa vinha morar.

– O que estás a fazer junto à janela?

– Estou a ver as tuas flores…. são bonitas….

– Sim, são… oh não!!!

A minha mini estufa tinha-se transformado num mini jardim zoológico de insetos, já não tinha flores, somente escaravelhos, bichos de contas e lesmas…

 

Pode-se afirmar que a ciência como um todo, é a principal responsável pelo desenvolvimento da humanidade como hoje a conhecemos.

A nossa proximidade com a natureza levou-nos a apreciar e a tentar compreender o seu funcionamento.

Os primeiros registos deixados pelo Homem foram de animais e encontram-se nas pinturas rupestres que podem ser encontradas um pouco por todo o mundo. Estes registos não eram feitos por mero acaso, mas como uma tentativa abstracta de compreensão e registo para futuras gerações.

 

As margens do rio Côa (Portugal), são uma galeria de obras de arte pré-históricas com mais de 25.000 anos. É o maior complexo de arte rupestre paleolítica ao ar livre do mundo sendo Património da Humanidade.

A aprendizagem é a palavra chave da condição humana, e desde o inicio da nossa existência que a nossa capacidade de reter conhecimento nos levou mais à frente.

Foi o reconhecimento do processo causa/efeito que nos possibilitou aprender quais as plantas que podiam ser ingeridas e quais as que tinham efeitos curativos para determinadas e especificas doenças, quais as plantas que poderiam ser plantadas e aquelas que só nasceriam através de sementeira.

 

 

 

Foi o conhecimento dos animais que nos possibilitou diferenciar o momento em que somos “presas” do momento em que somos “caçadores”. Foi com a observação e a retenção do observado que podemos perceber quais as funções que poderiam ser auxiliadas pelos animais e com isto ganhar tempo disponível para outras aprendizagens, fazendo do conhecimento um ciclo sem fim.

Foram várias as descobertas na natureza que revolucionaram o pensamento e o estilo de vida humano assim como os livros publicados ao longo dos séculos sobre esta matéria sendo provavelmente o mais conhecido “The origin of the species” de Charles Darwin do ano de 1859.

Charles Darwin, talvez um dos mais reconhecidos cientistas mudou pensamentos e ideologias quando propôs a sua teoria da evolução, hoje reconhecida e que possibilitou mais uma vez a nossa evolução enquanto humanidade.

O livro apresentado data de 1904 e é baseado no plano de A. E Brehm, um escritor alemão, sendo uma edição coordenada, revista e ampliada à fauna portuguesa por Victor Ribeiro.

Aqui podemos encontrar uma grande variedade de insetos e outros seres vivos já conhecidos na época e as suas caraterísticas físicas e morfológicas, assim como algumas curiosidades comportamentais.

Alguns destes seres são desconhecidos da maioria da população como por exemplo os escorpiões ou lacraus e as tarântulas.

A tarântula, muitas vezes associada a países exóticos tem na verdade origem europeia e existe por cá, este nome deriva dos sintomas que a sua picada provoca conhecidos como “tarantismo” (delírios, tonturas, vertigens, dor local entre outros) mas o seu veneno ao contrário do que normalmente se associa a este nome é de baixa toxicidade para os seres humanos. Crê-se que na época dos descobrimentos este nome tenha sido vulgarizado ao ser utilizado para descrever as novas espécies perigosas, encontradas nos diversos continentes colonizados.

Maravilhas da Naturesa Por Victor Ribeiro 1904.png

 

I love fools’ experiments. I am always making them.

Charles Darwin

 

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Lazer

Bolo-Rei – Brindes e Tradições

Naquela noite tinha adormecido no sofá com o novo membro da família ao colo. Quando acordei de manhã já com o sol a bater no rosto reparei que a cachorrinha já tinha vagueado pela sala.

 Fui até junto do presépio de que muito me orgulhava e foi nessa altura que reparei que os presentes que estavam em frente do menino Jesus tinham desaparecido! Todos os brindes do Bolo-Rei que eu tinha guardado ano após ano para colocar no presépio como ofertas dos Reis Magos tinham sido literalmente devorados pela nossa pequena cadela e foi necessário levá-la ao veterinário para que tudo voltasse à normalidade…

Bolo rei

A dia 6 de Janeiro celebra-se o Dia de Reis.

Em alguns locais do mundo este é o dia de distribuir as prendas, para outros o fim da época natalícia e a altura em que as decorações são arrumadas, mas para muitos é dia de saborear o famoso bolo-Rei.

Diz a lenda que os Reis Magos fizeram uma viagem de 12 dias até chegarem perto de Jesus, ao chegarem ao estábulo onde estava o menino iniciaram uma discussão sobre qual deles iria entrar primeiro para levar a sua oferenda, passou um artesão que sugeriu como solução fazer um bolo com uma fava, aquele que encontrasse a fava no bolo seria o primeiro a entrar e a comtemplar o menino nascido.

O Bolo-Rei é assim associado aos reis magos com a côdea a simbolizar o ouro, os frutos cristalizados a mirra e o aroma o incenso.

A História, por sua vez, conta-nos que na Roma antiga já se fabricava um bolo similar nas festas de Saturno, onde quem encontrasse a fava era coroado como rei da festa.

Mas o bolo-Rei como o conhecemos apareceu na França no séc. XVII sendo a sua produção proibida aquando da revolução Francesa em 1789, posteriormente o bolo continuou a ser feito mas mediante outro nome.

A tradição deste bolo espalhou-se pela Europa e em 1870 apareceu em Portugal fabricado pela Confeitaria Nacional, em Lisboa, mais uma vez passou dificuldades durante a abolição da monarquia mas com o tempo voltou a prosperar nas casas portuguesas.

Ao mesmo tempo que se aperfeiçoavam os primeiros bolos-reis, também em França por volta de 1800, surgiram os primeiros anéis para guardanapos. Eram utilizados nas casas burguesas, onde nesta altura a apresentação de uma mesa composta já era requisito de uma família abastada. Com o tempo este objeto facilmente personalizado passou a encontrar-se por toda a Europa feito em diversos materiais e com as mais variadas gravuras, onde o mais requisitado era o monograma com as iniciais da casa.

Reis Magos em prata

Na figura podemos ver umas argolas gravadas em comemoração de 25 anos de casamento (Bodas de Prata) com produção em Londres no ano de 1935 como mostram as marcas de contrastaria inseridas nas peças.

 

 

 

 

GOLDSMITHS&SILVERSMITHS1023.1893bis
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Adereços

Cartola – Tendências e Extravagâncias

– Estou bem assim? Perguntou-me uma vez.

Olhando para ela e vendo que usava demasiados ornamentos, mas não querendo ser brusca respondi-lhe: -Hum, um pouco exagerada não achas?

– Não posso sair assim? Arriscou mais uma vez.

Pronto, tive de ser verdadeira:

– Acho… bem não leves a mal… mas pareces uma árvore de natal com tanto colar e tanta pulseira!!!

Nesse dia ela aprendeu uma lição para a vida porque a partir daí quando antes de sair me perguntava: – Estou bem assim? A minha resposta sincera passou a ser: – Perfeita!

Um símbolo de estatuto e poder desde o séc. XVI, associado muitas vezes aos grandes empresários e exclusivo da utilização masculina estima-se que teve a sua aparição no ano de 1797 na Inglaterra.

Cartola sec. XVIII

Embora o primeiro chapéu alto tenha sido produzido por George Dunnage em 1793 como prova a patente em posse da firma Dunnage & Larkin emitida no ano de 1794, conta a história que Hetherington, dono de uma retrosaria, apresentou ao mundo em 1797 aquilo que viria a ser a próxima grande moda do vestuário masculino até ao final da segunda guerra mundial.

Saiu para as ruas de Londres vestido a rigor com o seu novo acessório e chamou a atenção de todo o povo, a inovação era gigantesca, as pessoas ficaram tão incomodadas que Hetherington foi convidado a recolher-se por um policia, tendo mesmo sido acusado de distúrbio da ordem publica.

Sabemos hoje que a acusação afirmava que a sua invenção era de tal ordem estranha que levou ao desmaio de várias mulheres e ao pânico de crianças e animais:

“on the public highway, wearing upon his head a tall structure having a shiny lustre and calculated to frighten timid people… several women fainted at the unusual sight, while children screamed, dogs yelped and a younger son of Cordwainer Thomas was thrown down by the crowd which collected and had his right arm broken.” – The Hatters’ Gazette

A Cartola descende esteticamente dos sugarloaf e veio substituir os chapéus triangulares, sendo possível encontrar documentos onde se denota a transição estilística entre estes dois géneros de acessórios.

Charles-vernet-top-hat.jpg
Les Incroyables, 1796 por Jean Louis Marais

Tal como a revista Times anunciou no dia seguinte ao aparecimento deste chapéu, o mundo rendeu-se a este novo estilo e até ao ano de 1907 já tinham sido fabricados 16.500.000 chapéus, sendo a Inglaterra o maior fabricante e distribuidor com 36 artesãos.

Várias foram as marcas que ficaram conhecidas pela produção artesanal de chapéus entre elas, a Woodrow que tinha a sua sede em 46 Piccadilly Street London e tinha uma produção nacional com exportações para todo o mundo, marca que produziu a cartola apresentada na primeira figura.

Cartola marca (2)

George Brummel, um grande influenciador da moda na época sendo considerado como uma referencia máxima de elegância na corte inglesa, teve um papel muito importante na propagação deste acessório uma vez que ele achava adequado a utilização do mesmo durante o dia a dia, levando a que os seus seguidores adoptassem também este estilo elegante e discreto.

Inicialmente apenas empresários e senhores de grande estatuto podiam adquirir este chapéu, mas ao ser publicitado por entidades dirigidas ao povo comum como Abraham Lincoln e com a sua crescente produção tornou-se possível o uso destes itens por homens de classes mais baixas.

Woodrow anuncio
Alamy

 

Assim a Cartola tornou-se um elemento que ultrapassava a estética e era essencial no guarda roupa de qualquer homem, podendo até existir insultos e confrontos caso o homem não se apresentasse com esta ao saír de casa.

Outras tendências vieram e o chapéu alto passou a ser utilizado apenas em ocasiões mais célebres, existindo uma decadência da sua produção durante a segunda grande guerra levando ao encerramento total do ultimo fabricante de Cartolas (Battersby’s) em 1980.

 

 ‘the sign of a good dresser is someone who does not attract attention’

– George Bryan Brummel

 

Lazer

Pirâmide de Natal

 

Piramide Natal Alemã

 

 

Apagavam-se as luzes, acendiam-se as velas.

Olhava para o tecto, sombras em movimento previam a época  que chegava.

 

Eram minutos de silêncio partilhados por todos nós.

Era um ritual, o nosso ritual de natal.

 

 

Embora a árvore de natal seja associada a diversos cultos pagãos nomeadamente aos festejos do solstício de Inverno ou por exemplo em honra de Saturno, deus da agricultura, esta surgiu relacionada directamente com o natal nos países do norte da Europa havendo mais do que uma teoria para a sua origem.

Conta a lenda que Martinho Lutero, monge agostiniano alemão que viveu no século XVI, uma noite perto do Natal ao passear pela floresta ficou encantado ao ver os pinheiros cobertos de neve onde entre os ramos das árvores surgia o brilho das estrelas. Aquela imagem tão bonita fê-lo lembrar Jesus ao deixar as estrelas do céu para a vir à Terra no Natal e então com galhos de árvores decorados com algodão, outros objectos decorativos e pequenas velas conseguiu mostrar aos seus familiares a imagem magnifica que tinha presenciado sendo a primeira pessoa a ter em sua casa uma árvore de natal como conhecemos e a partir dessa data outras pessoas passaram a fazer uma árvore idêntica nas suas casas.

Porém uma outra história fala que São Bonifácio de Crediton deixou a Inglaterra e viajou para a Alemanha para pregar nas tribos germânicas pagãs e convertê-las ao cristianismo. Conta-se que encontrou um grupo de pagãos que sacrificavam um menino em honra de uma arvore de Carvalho. Para interromper este sacrifício afim de salvar a criança São Bonifácio cortou a arvore e desta brotou um pequeno abeto. O santo tomou a aparição do pequeno pinheiro como um sinal divino da santíssima trindade e a partir daquele momento as arvores foram decoradas com velas como uma forma de oferta.

O primeiro uso documentado de uma árvore nas celebrações de Natal e Ano Novo foi na praça da cidade de Riga, capital da Letônia, no ano de 1510. Nessa praça, existe uma placa dizendo que aquela foi a primeira árvore de Ano Novo, sendo que a frase está traduzida em oito idiomas diferentes.

primeira arvore de natal
Imagem retirada do google

Para além destas lendas, na idade média celebrava-se o dia de Adão e Eva a 24 de Dezembro, decorando-se uma árvore com maçãs a que se dava o nome de árvore do paraíso.

A actual árvore de natal é assim uma mistura de vários cultos e tradições que se fundiram e chegaram até nós.

As pirâmides de natal por sua vez, apareceram em primeira instância na cidade de Erzgebirge, onde os seus habitantes trabalhavam principalmente na industria mineira, eram feitas à mão e vendidas a pessoas que não tinham espaço para colocar uma árvore de natal verdadeira ou que morassem em locais onde estas fossem difíceis de encontrar. Estes objectos podem ser encontrados com mais de 200 anos de idade.

Hoje, a Alemanha continua a ser procurada pelas suas tradições e produtos natalícios existindo diversas feiras de natal onde podemos encontrar estas pirâmides com variados tamanhos e temas.

arvore de natal google
Imagem retirada do google

Para além do seu significado religioso e a sua bonita estética estes objectos apresentam ainda a particularidade de se movimentarem com o calor emanado pelas velas que são colocadas na base da pirâmide dando animação à peça e criando um ambiente natalício com sombras e formas.

O que a torna mais especial é a possibilidade de estar presente diariamente lembrando-nos que os sentimentos de natal nos devem acompanhar ao longo de todo o ano.

 

 

Adereços

Filigrana e a arte de “ourar”

Venceste

De olhos brilhantes

Vens para nos mostrar

Venceste a luta, conseguiste

Trazes junto ao peito como um sol

O sagrado, a riqueza e o poder

Vens de sorriso nos lábios

Mãos vazias e braços lavados

Vens pronta para trabalhar!

 

A filigrana é a arte de trabalhar metais como o ouro e a prata através de fios delicados que finamente entrelaçados formam peças elaboradas.

Os fios são torcidos, batidos e levados ao lume para ficarem moles e de seguida são limpos, só então o artesão dá azo à imaginação e com muito tempo e muita paciência cria uma peça diferente de qualquer outra, sendo uma obra de arte pois toda ela foi efetuada manualmente.

Coração Viana 2
Coração de viana em filigrana de prata dourada

A origem desta arte é milenar. Sabe-se que em Portugal remonta às civilizações pré-romanas pois foram encontradas diversas peças de joalharia que remontam a essa data.

 

Durante a idade média esta arte decorou alguns dos melhores objectos de culto como por exemplo o cálice românico de D. Gueda Mendes (1152) ou a soberba Cruz de D. Sancho I (1214).

Esta técnica localizada sobretudo na zona norte do país, pertence ao património da ourivesaria portuguesa onde essencialmente se representam motivos ligados à história e à cultura nacional, destacando-se crucifixos, relicários, corações de viana, arrecadas, colares de conta, brincos à rainha e também outros objectos como caravelas.

A maior parte das peças são efetuadas para uso pessoal como ornamentos preciosos para ocasiões festivas especiais e de significado religioso.

ourar

Estrabão, autor romano que viveu entre 65 ac e 25 dc descreve que a zona cantábrica (zona que abrange o norte do país) era uma espécie de matriarcado: “todas as mulheres bárbaras trabalham a terra” e que o marido “está obrigado a dotar a mulher; e as filhas, que herdam delas, têm a obrigação de casar seus irmãos, o que constitui uma espécie de ginecocracia, ainda que não como regime político”.

Depois chegaram os romanos tirando o poder às mulheres e dando os filhos aos pais.

 

De seguida chegam os árabes e as mulheres passaram a ser invisíveis, terminando as deusas, as sacerdotisas e deixando de existir os femininos ritos de fertilidade.

Caravela
Caravela – Pregador em filigrana de prata

Mais tarde quando nos Descobrimentos muitos homens partiram, as mulheres tiveram de tomar conta da terra e nelas renasce a vontade de serem detentoras do poder e descobrem que o ouro, riqueza que vem da pré-história se pode contrapor à propriedade masculina.

Que melhor maneira para iniciar essa rebelião do que utilizar o ouro como símbolo sagrado, como um talismã para a sua própria fecundidade e assim aceite por todos.

Sagrado
Noivas minhotas

Deste modo os cultos masculinos foram subtilmente substituídos por cultos femininos e conseguindo ludibriar as leis deste então, estes bens passaram a ser transmitidos por via feminina e de novo surgiram rituais femininos.

Ainda hoje por exemplo, a romaria da Senhora da Agonia em Viana do Castelo que vem de um antigo culto à lua e que se realiza desde 1783 é uma das festas maiores e mais alegres do país onde a mulher com os seus trajes típicos e “ourada” é o centro das atenções.

Senhora da Agonia

 

Adereços · Valor

A era do Ouro – Elizabeth I

coin Elizabeth I

Dentro daquelas gavetas havia livros com moedas, algumas prateadas e outras amarelas, havia moedas rosadas ou vermelhas e ainda outras acastanhadas.

– Esta moeda está furada porquê? Perguntei eu naquele dia.

– É uma moeda da sorte… a lucky coin! Respondeu-me ele, repetindo na sua língua primária como fazia habitualmente quando se entusiasmava.

Fiquei em silêncio a ouvir sem acreditar muito nas suas palavras.

– Dizem, já há muitos anos, que moedas furadas trazem sorte e que devemos ter sempre uma nos nossos bolsos ou na nossa carteira e se a moeda for de prata melhor ainda. Podemos pedir à lua nova que nos traga mais e mais moedas, continuou ele tentando convencer-me.

– Toma, fica com ela para ti. Coloca-a no teu porta-moedas… Não te esqueças de pedir à lua mais dinheiro, e os seus olhos sorriam ao perceber que eu desconfiava da sua história.

– Moeda da sorte… coitada, até está furada! Murmurei de modo a que ele não me ouvisse continuando a olhar para ela.

Esse dia passou e alguns outros também, mas veio a noite de lua nova que eu secretamente aguardava e nessa noite lá estava eu a falar à lua:

Lua, lua de prata

Tenho uma moeda da tua cor

Faz com que os meus bolsos

Tenham mais valor!

Mas lua não fiques zangada…

A minha moeda está furada!

(…)

Devido á variedade de temas e materiais utilizados na cunhagem, as moedas adequam-se a todos os gostos e por isso, seja com finalidade estética ou por estatuto, as moedas são utilizadas como acessório desde a antiguidade.

Sem perder o seu valor a moeda foi utilizada ao longo da história associada a trajes femininos e masculinos, podendo ser encontrada em brincos, colares, anéis, pulseiras, botões, pregadores e correntes de relógio.

Sendo um objeto extremamente viajante e com características intrínsecas ao seu local de produção, a moeda era um excelente objeto de divulgação e publicidade, era utilizada principalmente por mercadores, viajantes, comerciantes e personalidades abastadas que ostentavam as moedas de maior valor e beleza.

Devido, mais uma vez, ao seu valor monetário, a moeda está presente nas mais variadas tradições, sendo as mais recorrentes as relacionadas ao casamento, onde as noivas muitas vezes utilizam as moedas de forma figurativa na demonstração do seu dote.

Os costumes associados á sorte também podem estar intimamente ligados ao dinheiro e por isso muitas são as simpatias que apresentam a moeda como elemento principal.

Na imagem podemos ver uma moeda com a representação da Rainha Elizabeth I, com o valor de um Shilling que foi utilizada como adereço.

Isabel de Inglaterra

 

Elizabeth I reinou durante 43 anos na chamada “Era do Ouro” onde a Inglaterra teve um dos seus maiores crescimentos económicos. Também chamada de “Rainha Virgem” subiu ao trono com 25 anos em 1558.

Com uma personalidade forte e um grande charme não era difícil seduzir os homens da corte e embora nunca tenha decidido casar, ser cortejada era um dos seus maiores desejos.

 

A medida que a idade lhe levava os encantos Elizabeth começou a ficar obcecada com a beleza, usava perucas que para além de esconder os seus cabelos brancos acompanhavam os tons das vestes, as mãos e o rosto eram pintadas com cerude (uma mistura de vinagre com chumbo que lhe dava um tom branco e uniforme mas que era extremamente corrosivo), os lábios eram pintados com cera de abelha e tintura de modo a ficarem vermelhos e os olhos eram delineados.

Dizem que arranjou demorados processos de vestir e despedir que demoravam mais de 4 horas tal não era a sua vaidade e que as damas que a acompanhavam era obrigadas a vestir apenas branco e preto enquanto ela chamava a atenção com os seus tecidos coloridos.

Embora vaidosa a rainha Elizabeth dedicou a sua vida á pátria, derrotou a frota espanhola e a sua Invencível Armada em 1588, desenvolveu o mundo das artes com especial atenção para as artes literárias onde se destacam nomes como William Shakespeare, Edmund Spenser e Christopher Marlowe. Levou Inglaterra na exploração além-mar e dinamizou o comercio e a industria.

“Men fight wars. Women win them.”

– Rainha Elizabeth I

 

 

Faianças

Chá e Deuses

bandeja indiana antiga

Cinco batidas ritmadas no velho relógio de parede.

Fiquei alerta, pouco depois a porta do escritório abriu-se.

Ele olhou para mim e perguntou:

– Os trabalhos estão feitos?

– Quase, quase… respondi, mas com o olhar já perdido na outra mesa onde o chá me esperava.

– Vá, faz uma pausa e vem lanchar, chamou-me risonho.

Levantei-me e observei o ritual:

A toalha bordada, as chávenas de porcelana colocadas frente a frente com as pequenas colheres ordenadas em cada um dos pires, os guardanapos dispostos ao lado, os pratinhos com pãezinhos e a bandeja com o bule fumegante e o açucareiro.

Já sentada, o bule foi levantado e na bandeja surgiram flores estranhas de curvas retorcidas e Deuses que pareciam dançar para mim bailados excêntricos em cerimónias complicadas.

O chá deixou de ser apenas chá… de dento do bule saíram melodias estranhas e cheiros de especiarias exóticas e da minha chávena surgiram pétalas de flores perfumadas que em diferentes cores esvoaçaram pela sala até o meu chá arrefecer…

(…)

Esta bandeja é característica de Moradabad na India, uma cidade situada nas margens do Rio Ramganga com cerca de 679 mil habitantes e que tem o costume de trabalhar os metais para fabricar peças como bandejas; potes, vasos; esculturas, joias e outras peças de decoração e utensílios.

Não se sabe ao certo como nasceu a tradição de trabalhar os metais, mas existem registos que dizem que o solo da região era propício para a formação de moldes de barro necessários para moldar o latão.

A técnica utilizada tem o nome de “cera perdida” e consiste em desenhar e moldar a peça em cera de abelha e cobri-la com argila como contra molde, posteriormente a argila vai ao forno para endurecer e a cera de abelha derrete, deixando espaço para inserir o metal fundido que ganha a forma pretendida. Em frio, a argila é partida e deixa o metal a descoberto.

A primeira exportação destas peças foi para o Reino Unido em 1857, uma vez que o primeiro interessado nesta arte foi um colecionador de nacionalidade inglesa. Ao verificar a rentabilidade deste ofício o número de artesãos cresceu continuamente.

Hoje Moradabad é conhecida como Peetal Nagri (Terra do latão) e as suas peças são exportadas para todo mundo, existindo no local mais de 600 exportadores e 5000 fabricantes.

Nesta bandeja de inícios do séc. XX de inspiração Hindu podemos ver uma representação da deusa Durga e do deus Hanuman.

bandeja indiana sec.19

Hanuman é para o hinduísmo um ser imortal, uma reencarnação da deusa Shiva, filho do vento e de Sri Anjanna, leal servo do Deus Sri Rama. Tem uma forma símio humanoide, é adorado por milhões de pessoas na India e simboliza a força, a positividade, a devoção e a dedicação.

Durga por sua vez é um dos deuses mais conhecidos do Hinduísmo e é retratada como “A Invencivel”, mulher de Shiva e por isso madrasta de Hanuman é ela quem caça os demónios, as forças do mal presentes na crença Hindu.

Shiva Indian Tray

 

É geralmente acompanhada de uma espada como símbolo de sabedoria, um tridente denominado de trishula, arma com a qual destrói a ignorância humana, a concha que representa o som universal (OM) e o tigre que insinua força, destruição e determinação.

No Hinduismo podemos encontrar os mantras: poemas em sânscrito, místicos e religiosos que são recitados ou cantados de forma repetitiva e que têm como objetivo auxiliar na meditação. Os mantras são escolhidos consoante o Deus a que se reza e consequentemente a ajuda necessária.

O mantra “Jai mata Kali kay mata Durge” é direcionado á deusa Durge e ajuda a ultrapassar obstáculos, a defender do mau olhado, do orgulho e dá força para combater ataques inimigos.

 

Este Post teve o contributo do blog: https://rekhasahay.wordpress.com/

 

 

Documentos

O Livro: βιβλία

Cumpri o que te prometi… ou quase

Percorri todos os teus castelos ou quase todos

Abri todas as tuas masmorras ou quase todas

Conheci tudo o que havia para conhecer ou quase tudo…

Abracei as tuas memórias

Fiz delas as minhas recordações também!

Nada se dissipou ou quase nada

Cumpri o que te prometi… ou quase

Desculpa, mas o tempo às vezes vence

Mas não vence tudo nem vence sempre…

 

universal family bible.png

Foi escrito por mais de 40 autores, possui aproximadamente 3.566.480 de letras, 773.692 palavras, 1189 capítulos e 31.102 versículos. O seu nome vem do grego “βιβλία” que significa livro, foi traduzido parcialmente em 1500 línguas e é o livro mais editado, comprado e lido do mundo.

Nas fotografias podemos ver um exemplar do ano 1773 que embora pareça uma bíblia normal, possui no seu interior uma particularidade…

São chamadas de “family bible” e são bastantes conhecidas no Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia.

Para além de terem escrito o velho e o novo testamento têm no seu interior, mesmo no centro do livro, uma secção denominada de Registro. Era nestas folhas em branco que as pessoas escreviam datas de nascimento, casamento e morte dos seus parentes, sendo assim um objeto importante na rastreabilidade genealógica das famílias.

Eram muito populares na época vitoriana, sendo vendidas de porta em porta, podendo por isso, ser encontradas até em famílias não católicas.

Tem uma dimensão aproximada de 42cm de cumprimento, 28cm de largura e 10cm de espessura, com um peso perto dos 5kg.

universal family bible 1773

“Love one another”

– 1 Pedro 1:22

Adereços

Porta-moedas e a Loba de França

Porta moedas séc XVIII

Lembro-me daquele final da tarde de um lindo dia de outono, os dois no terraço sentados nas cadeiras de balouço olhando a serra, em que ele me falava sobre o seu antigo amor:

– Éramos diferentes, dizia ele

– Muito diferentes? Diferentes como? Perguntava, tentando conhecer aquela mulher através das suas palavras.

– Well, todas as pessoas são diferentes, mas nós tínhamos culturas diferentes, a nossa língua mãe era outra e….

– E então, não se entendiam?

– Claro que sim e muito bem. Mas sim, éramos diferentes!

– Até aí já percebi…. E as maiores diferenças quais eram?

– Aah, vou-te mostrar, levantou-se e contornou a casa desaparecendo do meu olhar.

Quando voltou, trazia com ele dois pequenos objectos e colocando um em cada mão tentou explicar-me daquela maneira tão própria.

– Este sou eu, mais sério, mais austero se calhar mais simples…, abrindo uma mão e mostrando-me um porta-moedas antigo de pele.

E de seguida, exibindo na outra mão inconscientemente elevada, um porta-moedas trabalhado em malha de prata:

– E este… era ela…mais divertida, mais imaginativa e mais complicada também!  

– Dizem que as pessoas diferentes se complementam, respondi-lhe eu percebendo que neste caso as diferenças traziam positividade à relação.

– Oh sure, yes!…, e olhando para o verde da paisagem em nossa frente continuou:

– Desde então, sinto o meu coração incompleto e a minha alma esvaziada…

“All good things must come to an end”.

 

Com o aparecimento das moedas apareceram também os recipientes que serviam para as transportar, sendo estes mais simples quanto mais antigos.

O porta-moedas mais antigo de que há conhecimento foi encontrado junto de uma múmia natural europeia conhecida como “Otzi the Iceman” com 5300 anos. Podemos encontrar também sinais destes objectos nos hieróglifos egípcios e são frequentemente vistos na Grécia antiga e mais tarde na época medieval.

É de ressaltar que as civilizações antigas não utilizavam bolsos uma vez que estes apareceram apenas no séc. XVII, transportando-se as bolsas presas na cintura normalmente acopladas aos cintos.

Estes porta-moedas são assim uma fase inicial das malas e carteiras utilizadas hoje em dia e tal como estas, tinham uma função prática e estética.

Podemos encontrar no decurso da História, varias referências que demonstram a utilização destes itens e em alguns casos foram até protagonistas como no escândalo da corte Francesa “Tour de Nesle Affair”

Isabella de França e irmãos.jpg

Em 1314 numa visita a França, Isabella de França (também chamada de Loba de França) e mulher de Edward II de Inglaterra, levou 3 bolsas de seda para entregar como presente aos seus três irmãos Louis, Philip e Charles, também filhos de Philip IV.

Mais tarde noutra visita, a rainha apercebeu-se que dois cavaleiros franceses, Gautier e Philippe d’Aunay utilizavam duas dessas bolsas nas suas vestes e imediatamente comunicou ao seu pai que mandou investigar o facto.

Ao que parece, as princesas estavam a cometer adultério, os cavaleiros envolvidos foram condenados à morte e as princesas presas perpetuamente no castelo Gaillard.

Os porta-moedas apresentados na imagem datam do séc. XIX, sendo um de prata (de mulher) e outro de cabedal (de homem). Eram utilizados no interior dos bolsos como uma forma pratica de guardar as moedas. O seu sistema de fecho é idêntico e característico desta altura, podendo encontrar-se ainda estes  objectos em variados tipos de malhas, materiais e enfeites.

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